“Tenho em mim todos os
sonhos do mundo”
- Fernando Pessoa
Tenho, de facto, sonhos. Às vezes esqueço-me deles. Ou finjo
que me esqueço. Outras vezes, lembro-me. E outras quantas, agarro-me a eles com
tal vivacidade que nunca mais os quero largar. E fico a sonhar. A sonhar com o quê?
Já não me lembro. Por isso, continuo a escrever este texto.
Ao presente, tantas ou mais vezes esquecido que os meus
próprios sonhos, volto. As crianças fazem barulho, entretidas a conhecer aqui a
biblioteca. Ou será ao passado que volto? Porque, entretanto, já divaguei pelas
minhas memórias de quando era pequena e também de quando visitei a biblioteca
da minha cidade. Fascinavam-me os longos corredores e secções sem fim cheios de
livros. Julgava eu serem grandes. Quando somos pequenos, tudo parece grande. Não
tenho vontade de mingar outra vez, mas recordo-me das peripécias vividas. É
passado ou presente?
- O que é que queres ser quando fores grande?
Não sei. Nunca soube. Nunca gostei de responder a esta pergunta. Sempre me esquecia do que sonhava
acordada. E, sinceramente, também nunca fiquei grande.
Quando dormia, sonhava que tinha asas enormes, brancas como
as de um anjo, e podia voar. Tinha superpoderes e o meu elemento era o fogo,
mas um que não queimava ninguém. Era a heroína de um mundo só meu. Sempre foi
mais fixe do que a realidade. Na realidade eu não suporto a sensação de
adrenalina. Não ando em montanhas-russas, nem que me paguem!
A criança sonha. O adulto sonha. E sonhar é humano.
Sonhámos o passado, sonhamos no presente e sonhamos o
futuro.
Ficar preso à ideia de um sonho, que já não é sonho algum, é
que não!
Deixa morrer essa ideia e segue em frente. Foi das coisas
mais que difíceis que já fiz. Mas se já não era o meu sonho, então para quê
continuar? Descobri outros. Quais? Bem, não me recordo.
Acho que devia começar a apontar os meus sonhos num caderno.
- Enve
P.s.: Recomendo a leitura da crónica «Sinais interiores de riqueza» de Lobo Antunes, que inspirou em parte este meu texto. Sinais interiores de riqueza - crónica
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