Era uma vez uma borboleta bela na sua simplicidade, com asas brancas como uma tela por pintar a sua vida das cores mais vivas e encantadas. Ela tinha um sonho de um dia poder voar de palco em palco, sozinha ou partilhando-os com outras borboletas.
Só que a pequena
Borboleta nunca se achou suficiente. Pensava que as suas asas nunca seriam grandes o suficiente para poder
voar para sítios maiores; que não eram bonitas o suficiente para se mostrar, de
modo que se sentia envergonhada quando era obrigada a fazê-lo. A vergonha que
tinha de si impedia-a de voar corretamente, o que a punha ainda mais triste e
desalentada. Não importava o quanto ela praticasse que nunca era o suficiente.
Nunca seria. Aos seus olhos, as outras borboletas tinham asas maiores, mais
belas e os seus voos eram magníficos. Eram tudo o que a pequena Borboleta não
era.
Após tantos anos a
comparar-se e a achar-se insuficiente, ela desistiu. Estava cansada de passar horas e horas a fio
numa sala fechada a praticar e sem ver o seu sonho cada vez mais perto como
queria. Teimou que nunca iria ser boa o bastante e que nunca o alcançaria. Por
esse motivo, ela tinha ódio dentro de si. Odiava ter vivido num meio em que a fez
sentir-se tão reprimida e incapaz durante tantos anos. E chegou a ser tão injusto
o sentimento, que passou a odiar também as suas asas e a ela própria. Ela tinha
pena de si.
Completamente
derrotada e tão em baixo como nunca, tomou, então, a decisão de mudar por
completo a sua vida. E a muito custo e medo, pois estaria a deitar fora anos de
trabalho, expectativas altas, suas e de terceiros, e, sobretudo, o seu sonho,
decidiu arrancar impetuosamente as suas asas para sempre. Não queria mais asas
que a impedissem de voar o quão alto ela uma vez almejou e que a fizessem
sentir inferior aos seus iguais. Finalmente, aceitou que aquele sonho já não era
mais dela.
No momento da
libertação, a pequena Borboleta, ainda assim, não se sentiu muito melhor, como
esperava. Continuava a chorar. Continuava frustrada. Continuava sem saber que
rumo havia de dar à sua vida. Perdeu-se por completo e, durante meses, assim continuou,
no fundo sempre esteve até aí. A única coisa de que tinha a certeza era a de
que nunca mais iria voltar atrás na sua decisão. E até ao dia de hoje a cumpre.
Sem nenhuma outra
alternativa, ela voltou a ser lagarta. Entrou no seu casulo com a promessa de
que sairia de lá uma borboleta fiel a si mesma. Encontrou um propósito inicial e,
a partir daí, deu verdadeiro uso às suas asas para voar, não para palcos
maiores, mas para sítios em que ela soubesse que iriam deixar uma marca de cor
nas suas asas brancas.
Talvez ela tenha
encontrado esses lugares, ou talvez ainda esteja à procura deles. A Borboleta sabe,
agora, qual é o valor das suas asas e também qual é o seu valor enquanto
borboleta. Assim, anseia pintar-se com as cores mais desafiantes e
promissoras que existem neste mundo.
Desta história, tento lembrar-me com frequência de que às vezes, tal como borboletas,
não somos capazes de ver a beleza das nossas próprias asas. Mas, também como lagartas,
podemos voltar a transformar-nos, a reinventarmo-nos vezes sem conta. Julgo ser
esse o especial em nós.
- Enve
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