Eu amo o Mar, que só
meu é.
Mas somente o mesmo Mar, eu já desamei.
Não posso dizer que
já odiei o mar. “Odiar” é uma palavra demasiado forte para aqui e, por isso, uso
uma que, praticamente, diz o mesmo, só que dita por uma criança de quatro anos,
embora pareça um tanto poético.
Foi o
mar que me ajudou a libertar o que estava cá dentro num momento difícil na
minha vida. Um momento em que andava tão perdida quanto um barco à deriva, numa
noite escura como breu, à procura de um farol para lhe indicar o caminho. Eu
precisava desse farol. Só muito mais tarde é que o encontrei, mas não é esse o
ponto que nos interessa aqui.
Foi o tempo a sós
que passei sentada na areia da praia que me fez refletir sobre os meus
problemas, pensamentos e sentimentos. Era o único sítio onde me sentia
verdadeiramente confortável, capaz para tal e sem a preocupação do que as
outras pessoas iriam pensar de mim. Não as alheias, mas aquelas que se
preocupavam comigo. Nas primeiras vezes era tão difícil que a única coisa que
conseguia realmente fazer era chorar sem parar, enquanto olhava o horizonte.
Ainda assim, voltava sempre lá. Tinha essa necessidade.
Aprender a estar
sozinho não é fácil, sobretudo quando passamos por um momento menos bom.
Ironicamente, são nesses momentos que mais precisamos da solidão. Eu escolhi
o mar para estar só. Havia algo de aconchegante nele. Se me perguntarem o quê,
talvez diria que era uma ligação histórica, ou porque simplesmente tenho a
sorte de viver ao lado. Uma mistura, vá.
A verdade era que a
sua imensidão fazia-me pequena. Fazia os meus problemas parecerem mais pequenos
ainda. E, inexplicavelmente, fazia os meus sentimentos crescer...e crescer...e
crescer, como se desse um pouco da sua água salgada para se juntar à dos meus
olhos. Sentia-me tão assoberbada, pois guardo sempre tudo para mim. E sei que
tu, que estás a ler isto, provavelmente fazes o mesmo. Mas deixemos este
assunto para outro texto.
Eu era como o mar. A
minha mente, vasta; os meus pensamentos, ondas que nunca cessam em vir; e os
meus sentimentos eram como a maré que enche e cobre tudo, até a clareza de
pensamento.
Foi esse mesmo mar
que me fez crescer, que me fez enfrentar os meus sentimentos e pensamentos, que
tanto tentava fugir, e que hoje tanto guardo carinho. É para lá que vou quando
me sinto menos bem ou só porque, simplesmente, me apetece estar sozinha. É o
meu porto de abrigo. Porque necessito de silêncio.
Amo o meu Mar que me
faz só.
E, para mim, não há como desamar tal privilégio.
- Enve
Incrível, espero ansiosamente as próximas pubs
ResponderEliminar