Falar é Arte e eu não sou artista

 

Dai-me Arte e Engenho para comunicar,

Que eu não nasci artista

E para um saca-rolhas não ter que comprar.

 

Durante uma aula de técnicas de comunicação, refleti sobre algo que a minha professora disse:

    -“Os senhores são uma geração que não comunica!”

Ou algo do género. Não esperem muito da minha memória. Já consigo até ouvir a minha professora a dizer para nós modelizarmos o discurso e para não abusarmos do discurso direto como muitos comentadores de televisão, e não só, mas sobretudo, fazem.

Concluindo o aparte, penso que o que a minha professora afirmou não é surpresa para ninguém e nós, geração Z, temos que admitir que é verdade. Obviamente depende de pessoa para pessoa, mas o que está aqui em causa é a grande maioria e muitos nem sequer se importam com este problema.

Digo-vos que me importa e é algo que tenho vindo a tentar mudar. Falar mais: esmiuçar o mais ínfimo detalhe de algo trivial, mas que, no final, é isso que dá continuidade à conversa; partilhar experiências do quotidiano e o que aprendi nesse dia; escutar: pois o silêncio também é comunicar; entre outras.

Se és da opinião de que isto é cansativo e, talvez, desnecessário, não te censuro, até porque comunicar é um bico de obra. Não é tarefa fácil. É um exercício digno de comparação a uma meia maratona para alguns.

Mas quando nos apercebemos que o nosso esforço constrói relações pouco a pouco, mais e mais profundas, sentimo-nos mais felizes e menos sozinhos consequentemente. A não comunicação mata relações.

Confesso aqui que achava que falava muito sobre o meu dia a dia com a minha mãe e, quando lhe contei sobre esta minha aula, ela discordou de mim. Levei com uma espécie de choque, muito embora tivesse a noção deste problema da falta de comunicação. E até partilho o que ela comentou:

    -“Ainda é preciso tirar-te as coisas com um saca-rolhas para que fales mais”.

Decidi, então, esforçar-me mais neste sentido e pôr em prática aquilo que escrevi anteriormente. Pequenos gestos mudam muito e agora espero sempre o final do dia para contar aos meus pais que a minha professora chegou meia hora atrasada; ou as curiosas conclusões banais da vida que os meus colegas e eu chegamos; ou alguma história engraçada que me foi contada; ou, simplesmente, o típico: “Sabes quem vi hoje? Nem vais acreditar!”.


Daqui a um tempo pergunto à minha mãe se ela já guardou o saca-rolhas na gaveta.


- Enve

Comentários

  1. Não há nada melhor do que começar a semana com um bom texto reflexivo <3 Muito obrigada, Enve!

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