A libertadora solidão

A solidão nunca vai ser somente só, quando há mais um texto para falar dela. Por vezes, dou por mim espantada, assim que me apercebo de que faço tantas coisas sozinha, como passar a tarde a passear, a aproveitar o bom tempo e as paisagens, e até o simples facto de me deslocar para onde for sozinha. São coisas pequenas e quotidianas, mas que aprecio e agradeço por viver num país onde as possa, e onde seja normal, fazê-las.

 Ainda hoje, estava eu sentada num banco de jardim sozinha a ler um livro (que, ironicamente, fala da opressão de pensamento e expressão, dependência, entre outras privações). Era capaz de ouvir o chilrear dos pássaros, o rio a correr, uns espanhóis de fundo sempre a falar, o vento a soprar gentilmente nas copas das árvores. Mas, sobretudo, ouvia o sossego e a mim. Era só eu, o meu livro… e os espanhóis.

Piadas à parte, era só eu e o meu livro e nada mais. Devo admitir que passei um bom bocado ali. Assim continuaria se não precisasse de carregar a bateria do meu telemóvel, pois é sempre por causa desta dependência que, quer queiramos quer não, vamos continuar a depender. É uma prisão que vicia até ao ponto de não sermos capazes de viver mais sem ela. É uma prisão que os antigos não conheceram e penso em como eles conseguiam viver sem as comodidades que hoje temos graças à tecnologia. Chego à conclusão de que não sou capaz de imaginar tal coisa, muito menos de abdicar delas. No entanto, sabe sempre bem, de vez em quando, fazer um esforço para me libertar deste vício, mesmo que seja por uma tarde, um dia, o que for. É um alívio, mesmo para mim que sempre fui mais introvertida e que gosto de ficar na minha zona de conforto.

Outro dia volto a este momento, sozinha mais uma vez. Não tenho lá grande vontade de partilhar aquele sítio e a minha companhia com mais ninguém. Chamem-me egoísta, egocêntrica se quiserem, mas eu pretendo manter a minha paz sossegada.

Pergunto-me se será normal ou estranho. Creio que depende de cada pessoa. Aliás, já tive um amigo que estranhou e achou descabido estar num café sozinha a fazer horas. Ele é bem mais extrovertido do que eu alguma vez fui, o que invejo um pouco, então talvez a figura seja diferente para ele. Apenas prefiro a minha própria companhia. Continuo a pensar que isso não é fora de normal. 

Já passaste tempo contigo próprio hoje?


- Enve

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